Os "intelectuais" e os outros
28-07-2018
Tal como acontece com outras formas de arte contemporânea, na Fotografia, confrontam-se duas corrente antagónicas. Por um lado, os "intelectuais" que dominam, não só nos concursos, como nos critérios das galerias de arte e dos museus; por outro lado, os fotógrafos, amadores e profissionais, que se preocupam com a técnica, a estética e a comunicação.
Quer em Portugal,
quer noutras partes do mundo, existem de costas voltadas, ignorando-se
mutuamente, duas correntes de opinião, digamos, duas filosofias sobre o que é,
ou o que deve ser A Fotografia.
Por um lado, temos pessoas que giram em torno de um conceito, diria, intelectualizado da fotografia, que domina completamente alguns concursos fotográficos, que expõe em museus, e representa Portugal em centros e exposições internacionais de arte, trabalhos que são apresentados como o horizonte cultural a ter conta na produção fotográfica mas que não dizem nada à generalidade da comunidade fotográfica.
Os júris e os organizadores destes concursos e exposições são diretores artísticos, diretores e curadores de museus e de centros de arte, todos doutorados mas nenhum deles, fotógrafo, o que dá que pensar sobre a sua capacidade para analisar fotografia.
Atribuem-se prémios do mais elevado valor pecuniário a autores de quem nunca ninguém ouviu falar antes e muito provavelmente, nunca ninguém ouvirá falar depois, no mundo da Fotografia. Em Portugal, é o caso do BES PHOTO, agora chamado Novo Banco Photo que atribui um prémio de 40000 € ao vencedor.
Veja-se por exemplo, o trabalho de Letícia Ramos, uma das três finalistas de 2014:
Na minha modesta opinião de não doutorado, este, como os trabalhos de outros concorrentes, são projetos de pesquisa experimental, que podem ter, e normalmente têm, como é o caso, interesse cultural, mas os resultados fotográficos são de tão inferior qualidade que não passariam numa primeira aula de um curso elementar de fotografia onde qualquer professor (fotógrafo) aconselharia delicadamente a aluna a fazer deleate.
Percebe-se que o objetivo destes trabalhos e de quem os patrocina, é valorizar o pendor cultural do projeto e talvez o esforço despendido, sem minimamente ter em conta a qualidade do meio utilizado, ou seja, da fotografia. O júri do BES PHOTO e os de outros concursos na mesma área de influência, premeiam as intenções, os objetivos, admito que nobres, mas não os resultados, o que, para a comunidade fotográfica e o comum dos mortais é, no mínimo, estranho.
Por exemplo, o projeto de Letícia Ramos conduziu a quê? A nada. Será que alguma daquelas imagens tem o mínimo mérito de informar algo sobre o que fotografou? Ficamos a saber o quê, depois de as ver? Daqui a 100 anos, alguém estará interessado nestas imagens?
Por outro lado, temos um outro mundo, o dos fotógrafos, amadores ou profissionais de todo o mundo que têm como referências, entre outras, o World Press Photo, no qual, todas as imagens contam uma história plena de significado. A fotografia de baixo, concorrente ao WPF 2015, de Máximo Sestini, da Itália. é disso um exemplo.
Mas também podemos referir os mesmo critérios universalmente aceites e praticados pelo WPC - World Photographic Cup, uma espécie de Olimpíadas da Fotografia onde Portugal ficou em 3º lugar em 2015 e em 2º lugar em 2015 (naturalmente sem nenhum dos nomes participantes no BES PHOTO), pela FIAP - Federation Internationale de l'Art Photographic e pela pela APA - American Photographic Artists, e pela FEP - Federation of European Professional Photographers.
É o caso da neozelandesa Amber Griffin, com a fotografia de baixo, concorrente ao WPC de 2017.
Vendo estes dois exemplos e os dois anteriores, de uma vencedora do BES PHOTO, rapidamente se entende que não estamos a falar da mesma coisa. Se estas, são Fotografia, as outras, também o serão, só porque foi usado um suporte de tecnologia fotográfica? Julgo que não. Não é o meio utilizado que faz a obra. Com os mesmos meios, tanto se pode produzir lixo visual como obras de arte.
Nestes concursos
internacionais, todos os membros dos respectivos júris são fotógrafos de
reconhecidos méritos, conquistados à custa de muito trabalho e de bons
resultados, dedicados à arte fotográfica. Se por acaso, alguns forem doutores,
não será por isso que lhes será atribuído qualquer mérito no mundo da
fotografia.
Os júris destes concursos não querem saber das intenções nem dos esforços do autor para conseguir uma fotografia, querem saber apenas dos resultados que têm mérito ou não tem mérito.
A um júri, não interessa saber se Sebastião Salgado passou meses na Serra Pelada a viver nas mesmas condições miseráveis dos mineiros até ser aceite e poder começar a fotografar, não lhe interessa saber se Luís Quinta arriscou a vida a fotografar um tubarão, não lhe interessa saber se João Luis Dória passou uma noite suspenso por um arnêz num penhasco para fotografar o Curral das Freiras à primeira luz do dia, através de um buraco de uma nuvem. Ao júri apenas interessa decidir sobre o mérito ou demérito da fotografia.
Vivemos, portanto em dois mundos opostos que fazem lembrar o conceito de matéria e anti matéria. Se o World Press Photo, o World Photographic Cup e as grandes associações nacionais e internacionais de fotógrafos, são A Fotografia, o BES PHOTO é a anti fotografia. Pode ser outra coisa qualquer, mas não Arte Fotográfica nem Técnica Fotográfica. Não será pelo facto de se utilizar o suporte fotográfico como meio, que o resultado possa ser considerado Arte Fotográfica.